
A possibilidade de interferência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições brasileiras ganhou destaque na edição impressa desta quinta-feira (1º) do jornal americano The New York Times. Em uma reportagem publicada em página inteira, o veículo aponta o Brasil como o principal teste regional para a influência política de Trump na América Latina.
O texto, divulgado inicialmente na versão digital na segunda-feira (28), analisa o apoio do governo americano a candidatos de direita em eleições recentes no continente e os possíveis reflexos desse movimento na disputa presidencial brasileira, que coloca o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Segundo os jornalistas Ana Ionova e Adam B. Ellick, embora Trump não tenha declarado apoio público a nenhum candidato brasileiro, seu governo estaria favorecendo indiretamente a candidatura de Flávio Bolsonaro.
A reportagem também relembra a atuação de Trump em eleições recentes na América Latina. Na Colômbia, o presidente americano apoiou Abelardo de la Espriella, que derrotou por uma margem inferior a um ponto percentual o senador de esquerda Iván Cepeda, aliado do então presidente Gustavo Petro.
Em Honduras, Trump declarou apoio a Nasry Asfura, do conservador Partido Nacional, que venceu a eleição presidencial de 2025 com 40,3% dos votos, contra 39,5% de Salvador Nasralla, do Partido Liberal. O resultado foi marcado por uma apuração com atrasos, problemas técnicos e contestações.
O jornal americano também chama atenção para a circulação de conteúdos patrocinados nas redes sociais que podem beneficiar Flávio Bolsonaro. A reportagem cita publicações pagas, compartilhadas por perfis de direita nos Estados Unidos, que divulgaram projeções da plataforma de mercado de previsões Polymarket favoráveis ao senador, apesar de pesquisas eleitorais indicarem um cenário de disputa sem favorito definido.
Brasil reforça medidas contra interferência externa
A reportagem destaca que as autoridades brasileiras estão adotando medidas para proteger as eleições de possíveis interferências estrangeiras. Entre as iniciativas estão o monitoramento de campanhas de desinformação e ações de lobby com origem no exterior, além de esforços para combater alegações falsas sobre fraudes eleitorais.
O New York Times também menciona a preparação da Justiça Eleitoral para enfrentar ameaças ao processo democrático. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ampliou mecanismos de auditoria das urnas, reforçou ações contra a desinformação e solicitou a empresas como Google e Meta planos para combater conteúdos eleitorais enganosos produzidos com inteligência artificial.
Outro ponto abordado é a articulação diplomática internacional. Representantes da União Europeia, do Canadá, do Japão, da Austrália e de outros países vêm mantendo conversas informais sobre uma possível resposta conjunta caso o resultado das eleições brasileiras seja contestado.
De acordo com três diplomatas ouvidos pelo jornal, a intenção é defender a integridade do processo eleitoral e reconhecer o resultado das urnas, independentemente de quem seja eleito.
Relações entre Brasil e Estados Unidos
O texto também relembra o desgaste nas relações entre Washington e Brasília ao longo do último ano. Entre os episódios citados estão as sanções e ameaças tarifárias adotadas pelo governo Trump durante o processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, além de uma tentativa americana de enviar uma delegação ao Brasil para avaliar a integridade do sistema eleitoral.
A reportagem afirma que o Brasil busca se antecipar a possíveis tentativas de influência externa, levando em consideração episódios anteriores envolvendo Trump e sua atuação em disputas políticas na região.
Para construir a análise, os jornalistas entrevistaram mais de uma dezena de integrantes do governo brasileiro e da Justiça Eleitoral, além de policiais, agentes de inteligência e diplomatas estrangeiros. Parte das fontes teve a identidade preservada por não possuir autorização para falar publicamente sobre o assunto.

